A história de que sinto saudade está situada em outro território, em Buenos Aires. Uma das coisas da qual eu mais sinto falta é caminhar pelas ruas porteñas. Acho que a parte bonita dessa nostalgia tem a ver com a qualidade da caminhada. Buenos Aires me ensinou a acessar minha capacidade de observação e entrega durante um trajeto a ser percorrido. No começo foi difícil desapegar dos meus passos ágeis, típicos de uma paulistana. Mas as pessoas, o clima e o céu de Buenos Aires me ensinaram, misteriosamente, que não era sobre saber chegar ao destino final ou chegar rápido. Caminhar naquela cidade também era sobre se perder. E se perder também significa ocupar seu lugar no mundo.
A cidade estava sempre tomada pelos seus habitantes. Os porteños se apropriam das praças, das ruas, dos cafés e dos parques com muita naturalidade, como se todos esses espaços fossem uma extensão de suas casas.
O ritmo dos meus passos anunciava o nascimento de mais uma etapa de um processo íntimo da busca pelo “não se sabe o quê”. O chão firme e plano da cidade me devolvia a sensação da firmeza de existir com uma única finalidade: seguir adelante. Não havia pressão, mis pasos eran míos, em outras palavras: eu caminhava sem ter de provar nada para ninguém. Minha segunda profissão era ser estrangeira e é também dessa sensação que sinto saudade: não por não conhecer ninguém ou coisa do tipo, mas porque a condição de ser estrangeira me deu o direito de não me culpar em todas as inúmeras vezes em que eu abri uma porta equivocada.
Eu dizia:
- Aqui eu caminho diferente!
Me colocar em risco era ter como recompensa experienciar outra vida que não a minha.


