quinta-feira, 19 de julho de 2012

O artesão da vida


"Artesão da vida, a magia para tuas mudanças está dentro de ti."
" A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 4 de julho de 2012

LaLuna







Bovary


Ela pensava, entretanto, de vez em quando, que aqueles eram os dias mas belos de sua vida, a lua-de-mel, como se diz. Parecia-lhe que certos lugares da terra deviam produzir felicidade, como uma planta que se dá bem em certo tipo de solo.

Talvez ela tivesse sonhado em fazer a alguém a confidência de todas essas coisas. Mas como relatar uma angústia indizível, que muda de aspecto como as nuvens, que roda em turbilhão como o vento? Faltavam-lhe as palavras, a ocasião, a habilidade.

Nos reservados dos restaurantes que serviam ceias após a meia-noite, a multidão alegre dos literatos e dos artistas ria à claridade das velas. Eram pródigos como reis, cheios de ambições, ideias e delírios fantásticos. Era uma existência mais elevada que as outras, entre o céu e a Terra, acima das tempestades; algo de sublime. Quanto ao resto do mundo, estava perdido, sem lugar determinado e como se não existisse. Aliás, quanto mais próximas as coisas, mais o pensamento dela se afastava. Tudo o que a cercava de perto, a campina aborrecida, os pequenos burgueses imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso particular a que ela estava presa, enquanto além daquilo se estendia a perder de vista a imensa região das felicidades e das paixões.

Se ele tivesse desejado, entretanto, se tivesse percebido, se seu olhar, uma só vez que fosse, tivesse ido ao encontro de seus pensamentos, ela acreditava que uma abundância súbita se desprenderia de seu coração, como caem os frutos maduros das árvores, quando se lhes encosta a mão. Mas, à medida que se estreitava mais a intimidade de suas vidas, alguma coisa gradativamente a separava dele.

Ele já ouvira tantas vezes essas coisas que elas já não tinham para ele nada de original. Ela parecia-lhe com todas as amantes, e o encanto da novidade caía pouco a pouco como uma vestimenta, deixando ver, nua, a eterna monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma língua. Ele não distinguia, por ser homem eminentemente prático, a diversidade de sentimentos sob a semelhança das expressões.

Pensava que se deviam reduzir às devidas proporções os discursos exagerados que escondem as paixões medíocres, como se a plenitude da alma não ultrapassasse por vezes as metáforas mais vazias, pois ninguém pode jamais dar a medida exata de suas necessidades, nem de suas concepções, nem de suas dores; a palavra humana é como uma panela rachada onde batucamos melodias para os ursos dançarem, quando desejaríamos enternecer as estrelas.

“... tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti.”