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pássaros dos sonhos
despertou às seis da manhã. de propósito programei este horário. durante o domingo inteiro desejei um espaço de tempo só meu. uma faixa do dia sem o latido dos cães da rua, sem as vozes dos vizinhos, sem o assobio do pedreiro ou o grito da falha do aprendiz de tênis da quadra do prédio ao lado. sem uma pergunta oriunda lá do fundo da casa sobre algo que pode esperar. pois bem, antes de dormir eu programei o despertador às seis da manhã. e aconteceu. despertou às seis da manhã. ocorre que eu estava no meio de sonhos, que agora são imagens sobrepostas, confusas, de muitas mulheres, dos meus pés sujos, de minha mãe servindo um quitute com ovo cozido, de atrizes famosas estarem com a gente (muito provavelmente meus sonhos têm imagens que vejo o dia todo no instagram ou no facebook, o que me preocupa muito). no meio deste sonho, no meio desta reunião com cara de feminista, eu acordei. foi um susto, mas me dei conta que aquele era o momento que eu tinha reservado. o meu pacto comigo. então me acalmei, respirei fundo (com certa dificuldade por conta do aparelho móvel nos meus dentes). fui até a janela e comecei a escutar o som da rua. eram muitos pássaros. eram muitos tipos de pássaros. o sol ainda não tinha nascido. e eu estava plena por sentir que nada poderia invadir este momento, o qual busquei o dia inteiro. essa era a minha meditação. o som não vinha de nenhuma música do spotify, os pássaros me deram a trilha e eu fui guiada pela sensação de estar numa floresta à espera do Sol chegar. às seis e quinze ele já me dava os seus sinais. enquanto o Sol clareava a minha janela sutilmente, começaram a aparecer muitas mulheres pela minha mente. como se eu estivesse dedicando aquele momento para toda mulher que busca um lugar só seu, um ar sem nenhuma modificação de um outro alguém, uma pausa no movimento frenético em que somos obrigados a viver nos dias de hoje.
um pontinho de luz da janela me abriu espaço suficiente pra eu sentir que só eu estava viva naquele momento. eu era uma bruxa acordada no meio da madrugada, nem noite, nem dia. eu fui uma testemunha desta experiência que é só minha e de todas as mulheres.
voltei pra cama, cúmplice de mim. senti que tinha energia para correr uma maratona, mas me dei mais duas horas para assentar essa experiência em meu corpo. um tempo depois escutei as pessoas da casa acordando e fiquei feliz em saber que fui eu quem descortinou a luz do dia para a nossa casa.
mas isso é o meu segredo.
{eu}
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