Mais tarde foi ao cinema. Era um domingo gelado e úmido. A chuva molhava seu rosto com gotas finas e delicadas. Ela sentiu uma coisa boa e protegeu apenas seus cabelos vermelhos, recém escovados, para não ficar com frizz.
Quando estava no caminho de volta observou através do vidro molhado as luzes vermelhas de alguns carros que estavam na sua frente. Aos poucos diminuiu a velocidade desfrutando do som que sai dos pneus quando se encontram com o piso úmido. Seu carro estava com ruídos iguais aos de carros antigos e ela retomou, colocando a primeira marcha como se estivesse dirigindo um carro grande e pesado. Sentiu como se estivesse em outra época, outra vida e gostou daquilo.
Um homem de amarelo sinalizava através das mãos em contínuo movimento para baixo e para frente, o momento de prosseguir, sem olhar para dentro dos carros, sem interesse em saber quem era ela.
Ela então parou de escutar o que os pneus de seu carro diziam e, como que num decrescente/crescente, trocou um som pelo outro. Substituiu o atrito do piso com os pneus pelo som cinematográfico de uma serra, como quando desligamos o chuveiro e pela troca de som percebemos que alguém chegou em casa. A serra foi acionada por um homem com rosto de velho e corpo jovem, que olhava fixamente para o alto de uma árvore.
Junto com as gotas da chuva no vidro do carro seu olhar escorreu do topo até o tronco de uma bela senhora árvore. Um pano branco com as palavras: "Não corta!" abraçava o grande e grosso tronco de madeira escura. Algumas pessoas conversavam com homens de amarelo. Ela notou um certo tumulto controlado e o semáforo abriu.
Ao chegar em casa, constatou que o domingo poderia ser classificado como o dia da semana que possuía mais símbolos que qualquer outro.
Entrou em seu quarto, pisou com a bota úmida o piso de madeira limpo, acendeu a luz e olhou para o teto. Ela sentiu muito pelas duas lâmpadas órfãs de sua concha protetora.
O toque do celular cortou seu olhar direcionado para o teto. Ela leu a notícia do falecimento.
Seus dedos finos e frios abraçaram forte o celular, ela sentiu uma coisa. Sua garganta fechou, como se quisesse protegê-la de algo. Seus olhos não piscaram e uma lágrima correu pela sua bochecha junto com o som da chuva fina que a janela deixou passar.
Era como se ela abrisse o chuveiro para não escutar quem iria chegar.
Hoje alguém se foi, como todos os dias alguém se despede de alguém. Ela apagou a luz e não fechou os olhos. Com a cabeça afundando seu travesseiro, no meio da escuridão, ela recordou um longo diálogo que eles tiveram dentro do carro no caminho de volta pra casa. Eles passaram por aquela árvore?
No último respiro daquele domingo, ela pensou na trajetória dele e nos últimos momentos. E como que num respiro de alívio com alívio, ao fechar os olhos com o flash da imagem dele, que sumiu como num crescente/decrescente, a mulher magra sentiu uma coisa boa.
Ele viveu.
No último respiro daquele domingo, ela pensou na trajetória dele e nos últimos momentos. E como que num respiro de alívio com alívio, ao fechar os olhos com o flash da imagem dele, que sumiu como num crescente/decrescente, a mulher magra sentiu uma coisa boa.
Ele viveu.

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