terça-feira, 14 de abril de 2009

a mulher.

espio a mulher. estou na porta, bem de canto pra não ser vista. ela lava a louça da macarronada de domingo. o sol ilumina a cozinha através de uma enorme janela de vidro, em um dos vidros há um furinho bem pequeno e fino e é por ali que entra um feixe de luz diferente da vasta iluminação. ela coloca água quente em um balde e joga os talheres dentro, pega o detergente de cor esverdeada e espreme até o fim na esponja novinha. quando começa a lavar uma faca as espumas se misturam com a luz, ela abre a torneira e molha um pouco a esponja. quando aperta sai um monte de espuma e bolhas, fica tudo colorido. sem perceber passo muito tempo ali. ela já está passando o café. e tudo brilha, porque a luz do sol é muito forte. dizem que no interior o sol queima diferente, então ele ilumina diferente também. ela é caprichosa e tira do armário bolachinhas com recheio de goiaba dentro. a mulher sabe que nessa idade o que lhe resta é o capricho e a vaidade. vê-se no tom do batom e nas estampas da roupa. eu sei que a mulher se esqueceu de muita coisa, mas que guarda as que mais precisa saber. ela está cansada, obteve muitas conquistas, mas falta um alguém. saí de lá e fui me olhar no espelho pra ver em que já me pareço com ela. fiz caretas e ela se aproximou, me deu uma bolacha. eu aceito. ela volta e diz: cuidado, menina! mastigar na frente do espelho não é bom, você vai ficar com a cara torta. resta para a mulher o dom de inventar também. parei de mastigar para terminar de me olhar no espelho. eu tenho os olhos dela.

[eu]

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